Carteiros Literários chegam ao Jabaquara

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Por: Elisangela Alves Silva

As bibliotecas não são organismos isolados da sociedade, são ainda reflexos dos hábitos culturais de um povo e sua história. Os estudiosos da área afirmam que a fórmula ideal das bibliotecas públicas é como um tripé (acervo, mediação e espaço) tendo em vista o território e seus impactos. Porém, de nada vale ter um acervo impecável e um local aconchegante sem a presença de um mediador. A mediação pode contribuir como a ponte entre o acervo, o espaço físico e o território, é quem apresenta todas as possibilidades, aguça a curiosidade e ajuda a extrapolar os muros impostos por uma sociedade que olha a leitura destinada a quem tem tempo (bem precioso na fase de imediatismo que vivemos), ou como útil para as provas da vida, para uma finalidade específica, sem enxergar os tijolos e alicerces que a boa leitura constrói ao longo de toda vida.

Mas e quando surge uma pandemia cuja necessidade de isolamento se faz urgente para a preservação de vidas? E quando estamos impossibilitados de acessar o acervo de livros, ou de realizar as atividades básicas como o serviço de empréstimo porque até o papel pode ser condutor de transmissão de vírus? 

Dilemas de um momento nunca antes imaginado, nem na ficção e, diante de um cenário cuja tecnologia parece ser a solução no combate ao isolamento social, é dado um passo à comunicação de antigamente, que mediava não apenas as palavras, mas também os afetos e trazia as boas-novas. É essa a proposta dos Carteiros Literários, atividade já realizada na Biblioteca Hans Christian Andersen, no bairro do Tatuapé, zona leste da cidade de São Paulo, entre os anos de 2015 e 2017 com a mediação dos artistas da Cia. Núcleo Educatho e posteriormente assumida pela própria equipe da Biblioteca.  

Contudo, o ano de 2020 trouxe muitos desafios, além da pandemia e todas as implicações houve também uma mudança de residência e desde fevereiro a adição à atuação também como bibliotecária em apoio na Biblioteca Pública Paulo Duarte, no bairro do Jabaquara. 

Assim, veio à tona a ideia da entrega de poemas nas caixinhas dos correios das casas próximas à Biblioteca, como forma de dialogar com parte da comunidade e não permitir que o equipamento cultural fosse esquecido por seus vizinhos nesse momento de pandemia. É também um modo de colocar a população em contato com poemas e pequenos contos, sem gerar aglomeração ou colocar em risco a população. Além disso, é possível envolver simbolicamente meus filhos de 3 e 6 anos,  já que ajudam a decorar os envelopes com desenhos, a fazer a dobradura e na entrega das correspondências-poemas. 

A biblioteca é o lugar das memórias, onde guardamos nossas histórias, que esse projeto possa fazer que a população vizinha à Biblioteca Paulo Duarte crie novas histórias e relações com esse espaço tão significativo e importante. Que possa aflorar as memórias, o desejo por mais leituras e o registro ou troca de correspondências, já que há sempre um convite para escreverem à Biblioteca. Que os poemas sejam bálsamos aos leitores tal qual, Andersen, patrono da Biblioteca onde o projeto iniciou, fazia ao presentear amigos.

Esse projeto, que surgiu na simplicidade do cotidiano em família e no acordo de duas bibliotecárias (Elis da Biblioteca Hans C. Andersen e Bruna Cavalcante da Biblioteca Paulo Duarte),  procura manter sobretudo nesse tempo de pandemia um vínculo com o território e a população local, pois como indica Petit (2008, p. 154) , “um conhecimento, um patrimônio cultural, uma biblioteca, podem se tornar letra morta se ninguém lhe der vida”. 

Assim, é o momento de lembrar que há uma Biblioteca Pública ansiosa por receber novamente o seu público e mostrar que muito mais que um acervo de livros, há também mediadores, uma abertura para a escrita, a escuta e a leitura potente e sensível.  

Elisangela Alves Silva – Biblioteca Hans Christian Andersen e Biblioteca Paulo Duarte

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